A Federação de Hotéis, Restaurantes e Bares do Estado de São Paulo (FHORESP) reafirma seu compromisso com a transparência e com o alerta à sociedade e ao setor de turismo, alimentação e hospitalidade sobre a gravidade da presença do mercado ilegal de bebidas no Brasil.
Importa destacar que o levantamento da FHORESP, realizado à época (abril/2025), se deu num contexto de alerta aos decisores do setor representado pela FHORESP (turístico, de alimentação e hospitalidade), com o propósito de chamar atenção para os cuidados com os impactos econômicos, reputacionais e sanitários do mercado subterrâneo de bebidas dos nossos representados. Não teve, portanto, como foco específico o problema da contaminação por metanol, que se manifestou com gravidade posteriormente. Desde o início (consta do próprio estudo), a FHORESP enfatizou a dificuldade inerente em se obter dados precisos sobre esse fenômeno, dada sua natureza clandestina, bem como, a relativa escassez de estudos sistemáticos conduzidos por órgãos públicos, instituições privadas e entidades fiscalizadoras.
A FHORESP, ouvindo seus 20 Sindicatos Patronais, empresas do setor e de outros setores em amostragem, realizou um levantamento “destinado aos decisores do setor” sobre fraudes em geral (agências de viagens, buffets, QR Code em cardápios, cigarros e bebidas). Tal estudo seguiu um modelo típico de quantificação aproximada em contextos de atividades subterrâneas, onde não existem dados oficiais ou a possibilidade de acessar informações diretas. Como as fraudes no setor de bebidas são clandestinas e a fiscalização é insuficiente para cobrir todo o mercado, o estudo se baseou em dados indiretos, obtidos também com especialistas e autoridades públicas de fiscalização e controle que falaram sob anonimato, bem como, dados de entidades correlatas. Além disso, foram utilizados dados abertos de fontes públicas, como registros de fiscalizações e ações fiscais, que ajudam a formar uma estimativa realista sobre o impacto do problema. O dado final apresentado, trata-se de uma média plausível “corroborada” por dados mais recentes sobre fiscalizações de bebidas adulteradas, como as ocorridas na última semana, que revelaram apreensões significativas de produtos irregulares. Tais ações demonstram de maneira prática a magnitude do problema, validando a estimativa apresentada pela FHORESP.
Tal estudo nunca se propôs a ser uma “pesquisa com metodologia científica”, impossível de ser realizada dada a dificuldade de obtenção de dados confiáveis da economia subterrânea, ainda que se possa, eventualmente e por apego ao rigor técnico questionar a metodologia aplicada (o mesmo vale para demais levantamentos recentes, inclusive da USP) não se pode questionar o “dado”, que se aproxima numericamente dos demais, destacados abaixo.
Nesta semana, um estudo da Universidade de São Paulo (USP), intitulado “Controle de Produção de Bebidas no Brasil” (Revista Veja), trouxe evidências robustas que corroboram o diagnóstico da FHORESP: o mercado ilegal de bebidas — englobando fraudes, adulterações, contrabando e sonegação fiscal — se mostra cada vez mais expressivo. Segundo esse levantamento, as fraudes já chegam a representar mais de 25% do mercado total de bebidas, gerando perdas tributárias substanciais e comprometendo a concorrência leal no setor. Além desse, reportagens informaram que, em 2023, 27% das vendas de bebidas no Brasil foram ilícitas, segundo dados do Anuário da Associação Brasileira de Combate à Falsificação – ABCF (Exame, 2024). Já a ABBD – Associação Brasileira de Bebidas Destiladas, apontou que 28% das bebidas destiladas são ilegais e estimou que uma em cada cinco garrafas de whisky ou vodca seja potencialmente falsa (Correio Brasiliense). Esses dados são particularmente significativos porque se alinham à dimensão do problema e ao levantamento da FHORESP.
Além disso, o Estadão Verifica, sessão editorial do jornal O Estado de SP que verifica verdades e mentiras na mídia, publicou uma verificação sobre os dados publicados pela ABBD concluindo que não há conflito nas informações e citou positivamente o levantamento da FHORESP explicando a diferença entre o volume de bebidas “adulteradas” e o volume de bebidas “ilegais”, este último dado bem maior, sendo este o que trata o nosso levantamento.
Esses resultados reforçam os alertas feitos pela FHORESP em abril (quase 6 meses antes dos problemas com metanol), quando apresentou seu estudo apontando que, aproximadamente, 36% das bebidas comercializadas nacionalmente estão sujeitas a irregularidades, como falsificação, adulteração, contrabando ou sonegação fiscal. Tal coincidência entre os levantamentos — da FHORESP, da USP e Associações setoriais consolidam a necessidade de políticas públicas urgentes e ações integradas de fiscalização.
O que torna a situação ainda mais preocupante é que o país está operando no escuro. Até o momento, não há uma instituição pública ou órgão de controle que lidere o levantamento sistemático de informações, coordene a investigação e oriente a cidadania ou o setor produtivo sobre a real dimensão do problema. As informações disponíveis resultam de esforços isolados e descoordenados de entidades representativas, associações setoriais e veículos de imprensa, sem qualquer padronização, centralização ou política de transparência pública.
Os fatos recentes confirmam, tragicamente, a pertinência desse alerta. Operações policiais e fiscais já desativaram laboratórios clandestinos, apreenderam lotes adulterados e recolheram milhares de garrafas falsificadas ou sem comprovação de origem, em poucos dias de combate efetivo, demonstrando que a crise do metanol não é um evento isolado, mas o sintoma de um sistema de controle fragilizado e de uma cadeia produtiva vulnerável.
Essa ausência de coordenação e comando institucional evidencia uma grave falha do Estado, que não mobilizou, até agora, suas estruturas de vigilância sanitária, segurança pública e defesa do consumidor para oferecer uma resposta nacional articulada. A falta de atuação conjunta aprofunda a desinformação e fragiliza a confiança da população. Enquanto isso não ocorre, o setor privado e suas entidades representativas seguem trabalhando no escuro, sustentando seus diagnósticos em dados incompletos e iniciativas dispersas.
A FHORESP reafirma seu compromisso em colaborar com autoridades, entidades técnicas e o setor para promover práticas de rastreabilidade, fiscalização mais rigorosa e campanhas educativas, no sentido de mitigar os efeitos nocivos do mercado ilegal de bebidas no Brasil.
Atenuar ou negar a extensão do problema contribui para a perpetuação de um ciclo de fraudes que impacta a sociedade, enfraquece a Economia e, acima de tudo, coloca vidas humanas em risco.
Informamos ainda que em virtude dos últimos acontecimentos, nosso Núcleo de Pesquisa e Estatística, revisitará de forma mais aprofundada esse estudo (de seis meses atrás) e nos próximos dias divulgará um levantamento mais completo e robusto destinado ao nosso setor.



